A desinformação já se tornou um fenômeno comum no dia-a-dia do brasileiro. Ao dominar a comunicação, o ser humano também descobriu como manipular a verdade. Para muitos pesquisadores, há uma distinção importante entre “desinformação” e “fake news” (notícias falsas) , apesar de muitas vezes serem usados como sinônimos.
A Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Kássia Nobre dos Santos, entrega uma análise mais profunda sobre o impacto das redes sociais no conceito de verdade e como as novas tecnologias afetam a apuração jornalística. De acordo com ela, ao mesmo tempo que ferramentas como Google, WhatsApp e redes sociais transformaram a apuração, os jornalistas enfrentam o desafio de diferenciar entre fato e opinião em um ambiente digital onde a neutralidade quase não existe. Além disso, a crescente interação entre produtores e consumidores de mídia cria novas regras que ainda não é possível compreender completamente, realçando a necessidade de uma apuração mais ponderada e vigilante.No áudio a seguia, Kássia explica como as interações nas redes sociais e o fortalecimento das comunidades digitais aumentam relevância da informação, mas também fortalecem as preocupações com sua autenticidade:
Com essa expansão das redes sociais, a disseminação de desinformação tem se tornado um dos principais desafios à confiança pública e à integridade do debate democrático. Os efeitos se estendem além da manipulação da verdade, impactando diretamente eleições, saúde pública e a coesão social.
À medida que a tecnologia acelera a propagação de narrativas falsas, torna-se cada vez mais urgente a criação de políticas públicas e ações educativas que ajudem a mitigar esse fenômeno e reduzir seus danos.
Um estudo realizado pelo Senado Federal sobre o panorama político nos últimos seis meses de 2022 revelou que, em média, 76% dos brasileiros receberam notícias potencialmente falsas relacionadas à política. A pesquisa mostrou que, entre as pessoas que receberam essas notícias, 89% afirmaram tê-las visto nas redes sociais, destacando o papel dessas plataformas na disseminação de uma desinformação.
Diante do cenário crescente de desinformação no Brasil, veículos especializados em checagem de fatos surgiram com o objetivo de combater a disseminação desses conteúdos. Mas como elas operam no dia a dia? O trabalho dessas agências não se limita a identificar notícias falsas; envolve um processo de verificação que requer a aplicação de padrões éticos e metodológicos.
As principais agências de checagem trabalham com o mesmo objetivo que
é a checagem de fatos que majoritariamente se popularizam através da internet ou da
televisão. O trabalho busca garantir que o público tenha acesso às
informações corretas e verificadas. Natália Leal, CEO da Agência Lupa,
explica que o compromisso com a transparência e a correção é essencial para
solidificar a confiança do público: Seguir esses princípios garante a credibilidade
da Lupa e demonstra a retidão das análises que fazemos e das conclusões a que chegamos
.
A maioria dos veículos deste segmento que trabalham com checagem, como a Lupa, possuem regras que devem ser seguidas para garantir a efetividade e a credibilidade de suas checagens, incluindo a adesão a códigos de ética internacionais, como o da International Fact-Checking Network (IFCN).
Entenda o que é a IFCN
A importância desse trabalho fica ainda mais aparente nos dias de hoje quando uma informação
inverídica disseminada pode se converter em perigo real. Tão importante quanto o que fazem
as agências é como fazem, prezando pela transparência, Bernardo Barbosa, editor de checagem
da Reuters, explica: Nós damos preferência a consultar fontes públicas e online, porque
assim podemos disponibilizar esses links nos nossos textos, permitindo que qualquer pessoa
possa acessar e verificar as informações por conta própria.
Para tornar ainda mais clara a maneira através da qual essas agências conseguem alcançar seus objetivos de garantir a veracidade da informação,a reportagem vai explorar como elas operam na prática. A rotina de trabalho dessas agências revela a complexidade do processo de checagem, que vai muito além de simples verificações pontuais.
O dia a dia das agências de checagem consiste em um processo meticuloso. Na Agência Lupa, uma agência que conta com mais de 25 funcionários, dez desses atuando na parte de jornalismo, por exemplo, a metodologia segue três pilares: quem fala, o que fala, e qual o impacto do que é dito.
Nossa metodologia baseia-se nesses três pilares porque precisamos
entender quem está disseminando a informação, qual é o conteúdo dessa mensagem, e qual
é o seu potencial impacto social
, detalha Natália Leal. Segundo a CEO, esse processo é
complementado por uma auditoria anual que assegura o cumprimento dos mais altos padrões
de precisão e qualidade.
Na "Aos Fatos
, agência de checagem que surgiu em 2015 e localizada
no Rio de Janeiro, a colaboração interna é uma parte fundamental da rotina. Leonardo Cases,
chefe de reportagem, diz que o dia começa cedo, com repórteres usando diversas ferramentas de
monitoramento para identificar as supostas desinformações mais relevantes do momento.
A gente faz uma ronda diária pelas redes sociais e usa ferramentas de
monitoramento para identificar quais são as desinformações que estão ganhando mais tração
,
relata Leonardo. A equipe então se reúne para discutir quais peças precisam de maior
atenção, com base no potencial de alcance e impacto das notícias falsas. Às vezes, uma
informação que parece inofensiva pode ter um impacto devastador dependendo de como é
propagada
, completa.
Para a Reuters, o trabalho começa de maneira semelhante, com um foco
adicional na ligação da suposta desinformação aos eventos atuais. Bernardo Barbosa, editor
de checagem, explica que a equipe monitora plataformas digitais em busca de desinformação
vinculada a eventos de notícias e a assuntos em discussão pelas comunidades que servimos
.
A partir daí, a equipe realiza uma análise detalhada, que inclui identificar as alegações
falsas, rastrear suas origens e consultar especialistas para uma compreensão mais profunda
do contexto. O objetivo é fornecer uma resposta rápida, mas precisa, à desinformação,
utilizando fontes confiáveis e análises rigorosas
, complementa Barbosa.
Já no UOL Confere
, a divisão de checagem do Portal Uol é localizada na cidade de São
Paulo, contando com um editor e uma jornalista. O foco é direcionado para as desinformações
que têm maior relevância e engajamento nas plataformas digitais. Carlos Iavelberg, editor
da divisão de checagem, observa que a prioridade é sempre realizar a checagem das
desinformações que já estão com muita relevância no ambiente digital
. Segundo ele, o
objetivo é desmentir rapidamente as informações que já alcançaram um grande número de
visualizações e compartilhamentos, evitando que o impacto negativo cresça.
Além dos desafios técnicos, o trabalho dos checadores também pode afetá-los psicologicamente. Lidar diariamente com conteúdos enganosos, muitas vezes criados com intenções manipuladoras, exige resiliência emocional e pode gerar desgaste psicológico nos jornalistas envolvidos. Leonardo Cazes reflete sobre esses efeitos e como eles moldam a dinâmica de quem está na linha de frente contra a desinformação:
Ainda que o trabalho dos checadores tenha se tornado praticamente indispensável para o combate à desinformação, manter uma operação como as descritas não é algo filantrópico. Segundo os representantes entrevistados, garantir a independência editorial e a sustentabilidade financeira é um desafio constante e cada agência adota diferentes estratégias para lidar com essas questões.
Embora todas as agências de checagem afirmem ter o compromisso
com a independência e o apartidarismo, os modelos de capitalização de recursos
financeiros variam. A Agência Lupa, por exemplo, é sustentada pelos serviços
prestados a diferentes clientes e parceiros. Natália Leal explica que toda a
receita vem de entregas de produtos e projetos desenvolvidos, como produção de
conteúdo, consultoria, educação e desenvolvimento de produtos tecnológicos.
A
agência evita qualquer forma de apoio institucional para manter sua neutralidade
e independência editorial.
Já a Aos Fatos
adota uma abordagem híbrida, combinando
contratos com parceiros e a venda de tecnologia proprietária. Desde o início,
a tecnologia tem sido uma parte essencial do nosso modelo de negócios
, afirma
Leonardo Cases. A agência desenvolveu internamente ferramentas como a Escriba,
que faz transcrição automática de discursos, e comercializa essas soluções para
outras organizações. Além disso, o "Aos Fatos" também oferece serviços de
consultoria e educaçãomidiática, ampliando sua base de receita e reforçando
sua missão de combater a desinformação em diferentes frentes.
Além dos desafios internos de financiamento, as agências de checagem enfrentam a velocidade e o alcance da desinformação nas redes sociais. Plataformas digitais são nos dias atuais o principal campo de batalha contra a desinformação, exigindo que as agências adaptem suas práticas e tecnologias para combater o fenômeno.
As redes sociais são a principal disseminadora de desinformação, tornando-se então o principal campo de atuação das
agências de checagem. Bernardo Barbosa, da Reuters, observa que a desinformação que ocorre
no Brasil é bastante voltada para a política, mesmo quando aborda temas que não estão
diretamente relacionados à política
. Isso ocorre porque muitas vezes as fake news
, s
egundo ele, são usadas como ferramentas de manipulação para influenciar a opinião pública
e moldar percepções.
Leonardo Cases, do Aos Fatos
, enfatiza que as redes sociais devem ser vistas
como um ecossistema interconectado. O mesmo conteúdo circula em diferentes
redes, atingindo diferentes públicos e, às vezes, com sentidos e objetivos
diferentes
, comenta.
Ele aponta que mensageiros como Telegram e WhatsApp frequentemente funcionam como pontos de disseminação de informações de nicho, que depois se espalham para redes sociais maiores, como Facebook, Instagram e TikTok. Esta dinâmica cria um ciclo constante de desinformação que é difícil de romper, exigindo vigilância constante por parte dos checadores.
A disseminação de desinformação nas redes sociais é apenas parte de
um problema que pode se tornar ainda maior em um futuro próximo. Com os avanços tecnológicos,
como a inteligência artificial, novas ameaças aparecem, tornando um trabalho de verificação
complicado em algo ainda mais difícil. A criação de deep fakes e conteúdos ultrarrealistas
coloca em xeque a capacidade das agências de checagem de acompanhar essa evolução.
O avanço da tecnologia, especialmente no campo da inteligência artificial, tem apresentado novos desafios e oportunidades para as agências de checagem. Ferramentas como DALL-E, Midjourney, ChatGPT já são capazes de criar imagens e vídeos ultrarrealistas, complicando ainda mais a distinção entre o que é verdadeiro e o que é fabricado.
Nos preocupamos com o impacto que essas ferramentas podem ter,
pois trabalhamos diariamente com a identificação de conteúdos manipulados
, admite
Leonardo Cases. Ele reconhece que a tecnologia está evoluindo rapidamente e pode
se tornar uma ameaça cada vez mais significativa. A desinformação não precisa ser
bem acabada para ser eficiente; ela apenas precisa ser crível o suficiente para
enganar o público
, acrescenta.
Com o surgimento dessas novas tecnologias, as agências de checagem perceberam que combater a desinformação isoladamente é uma tarefa monumental. É nesse contexto que as parcerias e colaborações ganham ainda mais relevância, permitindo a criação de redes de apoio para enfrentar os desafios globais da desinformação.
As agências de checagem de fatos frequentemente trabalham em
colaboração para fortalecer suas operações e ampliar o alcance de suas ações.
A Agência Lupa, por exemplo, é signatária do código de princípios da IFCN,
o que, segundo Natália Leal, solidifica os princípios de transparência,
apartidarismo e correção no trabalho diário
.
Leal enfatiza que fazer parte de redes regionais, como a
LatamChequea, é vital para expandir a atuação em políticas públicas e fortalecer
parcerias estratégicas.
Apoios institucionais como os da IFCN e de redes regionais
nos permitem ter uma influência mais significativa nas políticas públicas e
aprimorar nossas negociações com diversos parceiros
.
Diante de tantas adversidades, o futuro do combate à desinformação exige
uma adaptação constante dos checadores. Como destacou anteriormente
Leonardo Cases, do Aos Fatos
, a desinformação não precisa ser bem
acabada para ser eficiente; ela apenas precisa ser crível o suficiente
para enganar o público
, o que ressalta a complexidade crescente desse
problema. Superar esses desafios – que envolvem tanto a sofisticação das
tecnologias de manipulação quanto o aumento do volume de conteúdo falso –
demandará não apenas recursos, mas também inovação contínua e colaboração
reforçada.
Com o avanço contínuo das tecnologias de manipulação
de mídia, os desafios para as agências de checagem de fatos só tendem
a aumentar. Leonardo Cases, do Aos Fatos
, alerta que mesmo conteúdos
de baixa qualidade podem ser suficientes para enganar o público
.
A capacidade de fabricar vídeos e fotos ultrarrealistas
está se tornando cada vez mais acessível ao usuário comum, o que torna o
trabalho das agências de checagem mais complexo. No futuro, o desafio não
será apenas detectar a falsidade de uma informação, mas também entender e
desmantelar as táticas cada vez mais sofisticadas de quem cria essas fake
news
, conclui Leonardo.