Ilustração: Leonardo Nunes

A desinformação já se tornou um fenômeno comum no dia-a-dia do brasileiro. Ao dominar a comunicação, o ser humano também descobriu como manipular a verdade. Para muitos pesquisadores, há uma distinção importante entre “desinformação” e “fake news” (notícias falsas) , apesar de muitas vezes serem usados como sinônimos.

A Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Kássia Nobre dos Santos, entrega uma análise mais profunda sobre o impacto das redes sociais no conceito de verdade e como as novas tecnologias afetam a apuração jornalística. De acordo com ela, ao mesmo tempo que ferramentas como Google, WhatsApp e redes sociais transformaram a apuração, os jornalistas enfrentam o desafio de diferenciar entre fato e opinião em um ambiente digital onde a neutralidade quase não existe. Além disso, a crescente interação entre produtores e consumidores de mídia cria novas regras que ainda não é possível compreender completamente, realçando a necessidade de uma apuração mais ponderada e vigilante.No áudio a seguia, Kássia explica como as interações nas redes sociais e o fortalecimento das comunidades digitais aumentam relevância da informação, mas também fortalecem as preocupações com sua autenticidade:


Como as redes sociais afetam o que é verdade
Kássia Nobre
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Com essa expansão das redes sociais, a disseminação de desinformação tem se tornado um dos principais desafios à confiança pública e à integridade do debate democrático. Os efeitos se estendem além da manipulação da verdade, impactando diretamente eleições, saúde pública e a coesão social.

À medida que a tecnologia acelera a propagação de narrativas falsas, torna-se cada vez mais urgente a criação de políticas públicas e ações educativas que ajudem a mitigar esse fenômeno e reduzir seus danos.

Um estudo realizado pelo Senado Federal sobre o panorama político nos últimos seis meses de 2022 revelou que, em média, 76% dos brasileiros receberam notícias potencialmente falsas relacionadas à política. A pesquisa mostrou que, entre as pessoas que receberam essas notícias, 89% afirmaram tê-las visto nas redes sociais, destacando o papel dessas plataformas na disseminação de uma desinformação.

Fonte: Acervo Pessoal.

Fonte: Acervo Pessoal.

Diante do cenário crescente de desinformação no Brasil, veículos especializados em checagem de fatos surgiram com o objetivo de combater a disseminação desses conteúdos. Mas como elas operam no dia a dia? O trabalho dessas agências não se limita a identificar notícias falsas; envolve um processo de verificação que requer a aplicação de padrões éticos e metodológicos.


Objetivos das Agências de Checagem

As principais agências de checagem trabalham com o mesmo objetivo que é a checagem de fatos que majoritariamente se popularizam através da internet ou da televisão. O trabalho busca garantir que o público tenha acesso às informações corretas e verificadas. Natália Leal, CEO da Agência Lupa, explica que o compromisso com a transparência e a correção é essencial para solidificar a confiança do público: Seguir esses princípios garante a credibilidade da Lupa e demonstra a retidão das análises que fazemos e das conclusões a que chegamos.

Natália Leal, diretora da Agência Lupa, destaca a importância da checagem de fatos para combater a desinformação e fortalecer a credibilidade jornalística.
Fonte: Acervo Pessoal.

A maioria dos veículos deste segmento que trabalham com checagem, como a Lupa, possuem regras que devem ser seguidas para garantir a efetividade e a credibilidade de suas checagens, incluindo a adesão a códigos de ética internacionais, como o da International Fact-Checking Network (IFCN).

Entenda o que é a IFCN

A importância desse trabalho fica ainda mais aparente nos dias de hoje quando uma informação inverídica disseminada pode se converter em perigo real. Tão importante quanto o que fazem as agências é como fazem, prezando pela transparência, Bernardo Barbosa, editor de checagem da Reuters, explica: Nós damos preferência a consultar fontes públicas e online, porque assim podemos disponibilizar esses links nos nossos textos, permitindo que qualquer pessoa possa acessar e verificar as informações por conta própria.

Para tornar ainda mais clara a maneira através da qual essas agências conseguem alcançar seus objetivos de garantir a veracidade da informação,a reportagem vai explorar como elas operam na prática. A rotina de trabalho dessas agências revela a complexidade do processo de checagem, que vai muito além de simples verificações pontuais.

Rotina de Trabalho

O dia a dia das agências de checagem consiste em um processo meticuloso. Na Agência Lupa, uma agência que conta com mais de 25 funcionários, dez desses atuando na parte de jornalismo, por exemplo, a metodologia segue três pilares: quem fala, o que fala, e qual o impacto do que é dito.

Nossa metodologia baseia-se nesses três pilares porque precisamos entender quem está disseminando a informação, qual é o conteúdo dessa mensagem, e qual é o seu potencial impacto social, detalha Natália Leal. Segundo a CEO, esse processo é complementado por uma auditoria anual que assegura o cumprimento dos mais altos padrões de precisão e qualidade.

Na "Aos Fatos, agência de checagem que surgiu em 2015 e localizada no Rio de Janeiro, a colaboração interna é uma parte fundamental da rotina. Leonardo Cases, chefe de reportagem, diz que o dia começa cedo, com repórteres usando diversas ferramentas de monitoramento para identificar as supostas desinformações mais relevantes do momento.

A gente faz uma ronda diária pelas redes sociais e usa ferramentas de monitoramento para identificar quais são as desinformações que estão ganhando mais tração, relata Leonardo. A equipe então se reúne para discutir quais peças precisam de maior atenção, com base no potencial de alcance e impacto das notícias falsas. Às vezes, uma informação que parece inofensiva pode ter um impacto devastador dependendo de como é propagada, completa.


Leonardo Cazes, chefe de reportagem da Aos Fatos fala sobre os desafios diários enfrentados pelos checadores na busca pela verdade.
Fonte: Acervo Pessoal.

Para a Reuters, o trabalho começa de maneira semelhante, com um foco adicional na ligação da suposta desinformação aos eventos atuais. Bernardo Barbosa, editor de checagem, explica que a equipe monitora plataformas digitais em busca de desinformação vinculada a eventos de notícias e a assuntos em discussão pelas comunidades que servimos.

A partir daí, a equipe realiza uma análise detalhada, que inclui identificar as alegações falsas, rastrear suas origens e consultar especialistas para uma compreensão mais profunda do contexto. O objetivo é fornecer uma resposta rápida, mas precisa, à desinformação, utilizando fontes confiáveis e análises rigorosas, complementa Barbosa.

Já no UOL Confere, a divisão de checagem do Portal Uol é localizada na cidade de São Paulo, contando com um editor e uma jornalista. O foco é direcionado para as desinformações que têm maior relevância e engajamento nas plataformas digitais. Carlos Iavelberg, editor da divisão de checagem, observa que a prioridade é sempre realizar a checagem das desinformações que já estão com muita relevância no ambiente digital. Segundo ele, o objetivo é desmentir rapidamente as informações que já alcançaram um grande número de visualizações e compartilhamentos, evitando que o impacto negativo cresça.

Além dos desafios técnicos, o trabalho dos checadores também pode afetá-los psicologicamente. Lidar diariamente com conteúdos enganosos, muitas vezes criados com intenções manipuladoras, exige resiliência emocional e pode gerar desgaste psicológico nos jornalistas envolvidos. Leonardo Cazes reflete sobre esses efeitos e como eles moldam a dinâmica de quem está na linha de frente contra a desinformação:


Efeitos psicologicos da checagem
Leonardo Cazes
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Ainda que o trabalho dos checadores tenha se tornado praticamente indispensável para o combate à desinformação, manter uma operação como as descritas não é algo filantrópico. Segundo os representantes entrevistados, garantir a independência editorial e a sustentabilidade financeira é um desafio constante e cada agência adota diferentes estratégias para lidar com essas questões.

Monetização

Embora todas as agências de checagem afirmem ter o compromisso com a independência e o apartidarismo, os modelos de capitalização de recursos financeiros variam. A Agência Lupa, por exemplo, é sustentada pelos serviços prestados a diferentes clientes e parceiros. Natália Leal explica que toda a receita vem de entregas de produtos e projetos desenvolvidos, como produção de conteúdo, consultoria, educação e desenvolvimento de produtos tecnológicos. A agência evita qualquer forma de apoio institucional para manter sua neutralidade e independência editorial.

Já a Aos Fatos adota uma abordagem híbrida, combinando contratos com parceiros e a venda de tecnologia proprietária. Desde o início, a tecnologia tem sido uma parte essencial do nosso modelo de negócios, afirma Leonardo Cases. A agência desenvolveu internamente ferramentas como a Escriba, que faz transcrição automática de discursos, e comercializa essas soluções para outras organizações. Além disso, o "Aos Fatos" também oferece serviços de consultoria e educaçãomidiática, ampliando sua base de receita e reforçando sua missão de combater a desinformação em diferentes frentes.

Escriba: Ferramenta de transcrição de áudio desenvolvida pela Aos Fatos
Fonte: Escriba.app

Além dos desafios internos de financiamento, as agências de checagem enfrentam a velocidade e o alcance da desinformação nas redes sociais. Plataformas digitais são nos dias atuais o principal campo de batalha contra a desinformação, exigindo que as agências adaptem suas práticas e tecnologias para combater o fenômeno.

Redes Sociais e Ecossistema de Desinformação

As redes sociais são a principal disseminadora de desinformação, tornando-se então o principal campo de atuação das agências de checagem. Bernardo Barbosa, da Reuters, observa que a desinformação que ocorre no Brasil é bastante voltada para a política, mesmo quando aborda temas que não estão diretamente relacionados à política. Isso ocorre porque muitas vezes as fake news , s egundo ele, são usadas como ferramentas de manipulação para influenciar a opinião pública e moldar percepções.

Leonardo Cases, do Aos Fatos, enfatiza que as redes sociais devem ser vistas como um ecossistema interconectado. O mesmo conteúdo circula em diferentes redes, atingindo diferentes públicos e, às vezes, com sentidos e objetivos diferentes, comenta.

Ele aponta que mensageiros como Telegram e WhatsApp frequentemente funcionam como pontos de disseminação de informações de nicho, que depois se espalham para redes sociais maiores, como Facebook, Instagram e TikTok. Esta dinâmica cria um ciclo constante de desinformação que é difícil de romper, exigindo vigilância constante por parte dos checadores.

Mensageiros são a primeira parada antes da desinformação se espalhar,
Fonte: Acervo Pessoal.

A disseminação de desinformação nas redes sociais é apenas parte de um problema que pode se tornar ainda maior em um futuro próximo. Com os avanços tecnológicos, como a inteligência artificial, novas ameaças aparecem, tornando um trabalho de verificação complicado em algo ainda mais difícil. A criação de deep fakes e conteúdos ultrarrealistas coloca em xeque a capacidade das agências de checagem de acompanhar essa evolução.

Impacto da Tecnologia

O avanço da tecnologia, especialmente no campo da inteligência artificial, tem apresentado novos desafios e oportunidades para as agências de checagem. Ferramentas como DALL-E, Midjourney, ChatGPT já são capazes de criar imagens e vídeos ultrarrealistas, complicando ainda mais a distinção entre o que é verdadeiro e o que é fabricado.

Nos preocupamos com o impacto que essas ferramentas podem ter, pois trabalhamos diariamente com a identificação de conteúdos manipulados, admite Leonardo Cases. Ele reconhece que a tecnologia está evoluindo rapidamente e pode se tornar uma ameaça cada vez mais significativa. A desinformação não precisa ser bem acabada para ser eficiente; ela apenas precisa ser crível o suficiente para enganar o público, acrescenta.

Com o surgimento dessas novas tecnologias, as agências de checagem perceberam que combater a desinformação isoladamente é uma tarefa monumental. É nesse contexto que as parcerias e colaborações ganham ainda mais relevância, permitindo a criação de redes de apoio para enfrentar os desafios globais da desinformação.

Parcerias e Colaborações

As agências de checagem de fatos frequentemente trabalham em colaboração para fortalecer suas operações e ampliar o alcance de suas ações. A Agência Lupa, por exemplo, é signatária do código de princípios da IFCN, o que, segundo Natália Leal, solidifica os princípios de transparência, apartidarismo e correção no trabalho diário.
Leal enfatiza que fazer parte de redes regionais, como a LatamChequea, é vital para expandir a atuação em políticas públicas e fortalecer parcerias estratégicas. Apoios institucionais como os da IFCN e de redes regionais nos permitem ter uma influência mais significativa nas políticas públicas e aprimorar nossas negociações com diversos parceiros.

Mapa Interativo
Clique na região de São Paulo ou Rio desejada para ver as agências disponíveis.

São Paulo

Diante de tantas adversidades, o futuro do combate à desinformação exige uma adaptação constante dos checadores. Como destacou anteriormente Leonardo Cases, do Aos Fatos, a desinformação não precisa ser bem acabada para ser eficiente; ela apenas precisa ser crível o suficiente para enganar o público, o que ressalta a complexidade crescente desse problema. Superar esses desafios – que envolvem tanto a sofisticação das tecnologias de manipulação quanto o aumento do volume de conteúdo falso – demandará não apenas recursos, mas também inovação contínua e colaboração reforçada.

Desafios Futuros

Com o avanço contínuo das tecnologias de manipulação de mídia, os desafios para as agências de checagem de fatos só tendem a aumentar. Leonardo Cases, do Aos Fatos, alerta que mesmo conteúdos de baixa qualidade podem ser suficientes para enganar o público.

A capacidade de fabricar vídeos e fotos ultrarrealistas está se tornando cada vez mais acessível ao usuário comum, o que torna o trabalho das agências de checagem mais complexo. No futuro, o desafio não será apenas detectar a falsidade de uma informação, mas também entender e desmantelar as táticas cada vez mais sofisticadas de quem cria essas fake news, conclui Leonardo.